ENTREVISTA SOBRE NOVIDADES DA ESCLEROTERAPIA COM ESPUMA

Francisco Reis Bastos, angiologista, hoje conhecido como flebologista. Médico, casado, pai de três filhas, segue compondo sua própria história, repleto de saúde e cultura. Ao lado da Medicina, carreira que abraçou há 37 anos. Ele revela outros tantos talentos, como o de escritor, com sete livros publicados, e musicista, autor de mais de 50 composições, com 2 CDs gravados. Como preconizou um de seus escritores prediletos, Guimarães Rosa, em seu viver também tudo cabe. Pois não é que Chico Bastos, como é conhecido no meio cultural, também é produtor de cachaça? A atividade não chega a ser meio de vida, mas lhe fornece importante sustento espiritual. É assim que vamos ver essa alquimia de talentos e a riqueza das experiências que acumula em sua vida, pontuada por sons, palavras e espumas…

Sim, a escleroterapia com espuma representa uma notável conquista da medicina e da tecnologia. Com essa técnica moderna e mais segura todos os pacientes portadores da insuficiência venosa crônica, as varizes, podem se beneficiar do controle da doença e usufruir uma melhor qualidade de vida. Pacientes idosos, portadores de outras doenças crônicas, pessoas complicadas com úlceras e erisipelas agora, podem ser controlados pelo sistema moderno.

            Nessa entrevista o angiologista Francisco Reis Bastos, pioneiro na técnica no Brasil, representante da Sociedade Francesa de Flebologia para a Latino-América e ex-presidente da SBACV-MG fala desse procedimento, seus riscos e vantagens.

De onde vem tanto ecletismo?

Sou da cidade de Oliveira e vim para BH, em 1966, Carlos Chagas é meu herói. Meu tio, Geraldo Reis, clínico, também me influenciou. Formado em Medicina, trabalhei na Santa Casa de Misericórdia por muitos anos, junto com os professores Ricardo Pereira de Souza e Ernesto Monteiro, ocorrendo grande parte de minha formação profissional. Depois, fui para Paris. A parte cultural veio, desde os tempos de estudante de medicina na UFMG, pois  tinha uma banda e participava do departamento artístico do diretório acadêmico, além do Show Medicina.

O senhor acaba de lançar uma biografia, a de seu pai, conte sobre ela.

Meu pai, (José Antônio Bastos) foi uma pessoa singular, com uma coragem e pioneirismo… Ele foi um grande empresário. Resistiu bravamente à crise de 1930, em Oliveira, onde permaneceu. Se estivesse vivo, teria 102 anos. Escrevi sua biografia, cujo título é Paixão pela Vida (Editora Folium). Ele era poeta, daí, minha verve literária. Criou a empresa de ônibus que ligava Oliveira a BH. Na época, demorava cerca de 12 horas no trajeto, em estrada de terra. O transporte dos passageiros era feito em uma jardineira, tipo aquela do Saulo Laranjeira. Ele também foi dono de agência de carro, oficina, posto de gasolina e padaria. Foi meu pai quem trouxe o gasogênio para Minas Gerais. Era danado de marqueteiro. É uma boa história.

Como a literatura ganhou espaço na sua vida?

Tenho vários livros publicados. Minha primeira obra é científica, abordando as varizes (Varizes – Conhecer para prevenir),  lançada em 1999 e já está na terceira edição.  A redação dela me permitiu descobrir o talento como escritor. Tudo começou com a escrita de folhetos explicativos para as pacientes. Eu sempre tive uma preocupação em democratizar o conhecimento médico. Se a paciente entende a doença, participa melhor do controle dela. Então, escrevia para elas. É importante deixar claro que as varizes não têm cura, mas têm controle. O livro vendeu mais de 5 mil exemplares no Brasil. Sempre levo a obra em minhas viagens pelo mundo afora e faz muito sucesso. Já foi traduzido para o inglês e o francês. Foi o primeiro livro brasileiro sobre a técnica de espuma e também me abriu o caminho para a literatura.

Escrever sempre foi um talento latente?

Sim. E eu, acreditando no que as pessoas falavam, apostei neste dom e segui escrevendo. Posteriormente, escrevi “Varrendo Flores”, um livro de poesias como homenagem aos ipês-rosa de Belo Horizonte. Em seguida, publiquei o livro de crônicas “Contracontos” e, daí, não parei mais. Também toco violão e  componho. Na faculdade de Medicina, já participava de bandas, como a “Lira Euterpe Filarmônica Santa Cecília Wilson Danza Jazz Band”. Era uma banda itinerante, formada por estudantes de medicina, apresentando  concertos-relâmpagos, à noite, na Savassi. Os instrumentos eram colocados dentro de uma Kombi e saíamos para as portas dos barzinhos, quando tocávamos duas músicas. Nessa época, eu tocava trombone. Era muito divertido e, depois, aprendi violão. Meu pai não me deixou aprender, quando era menino. Posteriormente, um jovem da época dos Beatles, quer é tocar guitarra. Com meu primeiro salário, como despachante em Belo Horizonte, corri e comprei um violão que chamei de Julieta e está comigo até hoje. Tive vários professores de violão, mas, aprendi muitas coisas sozinho. Assim, a música permaneceu na minha vida e percebi com ela, que, na vida, tudo é antropofagia. Comecei a compor, recriando em cima de canções que gosto, incorporando sons que ouvi e ainda escuto. Tenho umas 50 composições. Dá trabalho, mas é muito prazeroso. Também faço cachaça num sítio em Oliveira. Não é uma atividade comercial, mas é produção artesanal, alquímica, feita com carinho. Adoro a bebida e sirvo para amigos. Foi batizada de Ca-mom-bá que, em tupi-guarani, significa “melhor não há”. Procuro estar sempre ligado na internet, conectado ao mundo. Não dá para ser diferente.

Quais são suas preferências literárias e musicais?

Leio muito. Estou sempre lendo uns seis livros, ao mesmo tempo. Se empaco em um, passo para o outro. Mas, me emociona muito ler e reler Guimarães Rosa. É como cultivar um grande amor, cada vez que leio uma obra dele, tenho um olhar novo e enriquece a minha vida. Gosto também de Pedro Nava, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade. Já, na música, Villa Lobos, Noel Rosa, Chico Buarque, Adoniram e… outros tantos… O que me importa é a emoção de cada palavra, de cada som ouvido.

Sempre escreveu?

Sempre escrevi e guardava minhas impressões e reflexões nas  gavetas. Também sou compositor. Um dia, o Paulinho Pedra Azul me disse que não adiantava nada escrever canções e não gravar. Aí gravei o CD “Dom Quixote” com a participação do Paulinho com algumas canções de MPB. A música que o Paulinho gravou  “O tempo” tem um vídeo no youtube. Sempre conciliei a medicina com a cultura, sem prejuízos para nenhuma delas. As atividades são harmônicas na minha vida e, de certa maneira, muito complementares. Acho que a medicina é uma arte, a arte de dar uma vida melhor às pessoas, a arte do bem viver, de consolar. E, a literatura e a música não são diferentes. Uma vez, o Marcus Vianna, meu amigo, me disse que  o médico e o músico compartilhavam a mesma profissão no Egito antigo. O médico, para ser bom, precisava ser um bom artista. Os faraós mandavam matar se não fossem bons. É pela arte que converso com Deus. A ciência, se não tomarmos conta, congela a alma. E, a medicina não deve ser fria.

O senhor foi pioneiro na técnica para tratar varizes sem cirurgia. Como chegou a ela?

Completei minha formação em cirurgia cardiovascular em Paris, no Hospital Sant-Michel. Morei um ano lá. Fiz cirurgia, porque achei que encaixava mais no meu espírito, embora tenha gostado muito de clínica médica. Até  que cheguei à Flebologia, hoje, minha opção. Sou flebologista. Trato, sobretudo, das doenças venosas, uma área incrível e que está sendo muito atualizada. Os fundamentos da antiga Flebologia estão ultrapassados. Muitas das “verdades” não eram baseadas em nada. Hoje, buscamos comprovação cientifica e  evidências. O tratamento das varizes requer algumas dezenas de técnicas. Fui professor assistente de Anatomia Humana na UFMG, por nove anos. Tenho orgulho de ter produzido o primeiro DVD do mundo com um curso completo de escleroterapia (tratamento de varizes) com espuma. A técnica é, de certa forma, recente. Eu a trouxe para Belo Horizonte, há cerca de seis anos,  como um mapeamento da rede venosa por ecodoppler (ultrassonografia). Após, localizar o problema, é corrigido da seguinte maneira: a cada veia doente encontrada, faz-se uma injeção de espuma esclerosante com o polidocanol (POL).  É muito bonito ver o processo acontecer. Fiz muitas cirurgias até o dia em que vi que  não eram mais necessárias. Convencido que não precisava mais operar,  peguei todo o meu material cirúrgico e doei para o Hospital São Judas, em Oliveira. O tratamento com espuma, que há 30 anos não conseguia, me dá muito prazer, principalmente, os casos mais graves com idosos e doenças crônicas avançadas, tipo úlceras. Ninguém opera. Um professor meu, na França diz, que sou o Lula da Flebologia, porque trato os excluídos da cirurgia.

Essa espuma, mais que remediar, parece lhe encantar, não é?

Muito. É como se a parede da veia virasse um airbag.  A espuma gera a cicatriz na veia. A escleroterapia convencional tem 160 anos, mas, só entrou na fase adulta, com a espuma, pois permite usar menos medicamento e tem mais eficácia. Para entender melhor, veja a comparação: o sorvete é a espuma do suco de frutas. O suco é bom, mas pelo efeito espuma, o sorvete é melhor. O que seria da coca-cola, sem o efeito espuma? E o champanhe? Vale lembrar que o método da escleroterapia não tem a gravidade de uma cirurgia que necessita de um ambiente hospitalar,  podendo ser feita em clínicas ou em consultórios bem aparelhados. A segurança deve ser dada pelo bom treinamento do profissional angiologista com boa formação em ultrassonografia. Já existem normas e diretrizes, elaboradas por especialistas, em congressos de consenso ou baseados em grande experiência multicêntrica.

Dizem que o senhor é importante, até na França, pelo menos, no campo da Flebologia.

Bem, o importante é a escleroterapia com espuma, essa técnica moderna e bem-sucedida que controla essa doença incurável: as varizes.

Qual a diferença entre as chamadas “aplicações” e a atual escleroterapia com espuma?

A escleroterapia clássica é a técnica de cicatrizar as veias doentes, usada há mais de 160 anos com substâncias esclerosantes líquidas. O povo a chama de “aplicações”, pois são injeções de líquidos intra-venosos  para cicatrização interna das veias doentes. Na escleroterapia com espuma, nós utilizamos o esclerosante sob a forma de espuma. O “efeito espuma” permite maior contato e absorção da substância esclerosante, proporcionado mais segurança com maior aderência e uso de menos  medicamentos. A escleroterapia é o curso primário e a escleroterapia com espuma é o curso superior.

Como é feito o tratamento?

A pessoa fica deitada em uma mesa. Escolhemos a área em as veias estão mais doentes e com uma punção venosa, injetamos a espuma esclerosante, que se agarra à parede da veia doente e provoca um edema para, posteriormente, uma cicatriz dentro da veia. A colocação de meias elásticas medicinais ajuda aproximar as paredes da veia para cicatrizá-las. Recomendamos ao paciente caminhar para prevenir eventuais complicações, como trombose nos trombofílicos.

Quais as vantagens desse tratamento?

É um método minimamente invasivo e que pode ser feito fora de hospitais. É executado em regime ambulatório e dispensa anestesista. Pode ser feito em etapas e adequando às necessidades de cada paciente. É um método democrático, pois permite a todos os portadores de varizes serem tratados, mesmo quem tem doença mais avançada, ou que tenha outras doenças paralelas, idoso ou não.

O método é dispendioso?

Apesar de envolver tecnologia moderna, como o ecodoppler (ultra-som) e o venoscópio de LED (transiluminação), é um método mais barato, pois dispensa o custo da estrutura hospitalar com o serviço de anestesia. O processo não exige repouso e a pessoa volta, imediatamente, às suas atividades.

Quais são os riscos?

A escleroterapia é um método usado há muito tempo e conhecemos as suas complicações. Como a escleroterapia com espuma usa um potencial esclerosante maior – “o efeito espuma”-, deve-se ter os cuidados proporcionais. O processo é feito sob controle preciso com o ecodoppler e a injeção da espuma é feita, cuidadosamente, com baixa pressão, sempre dentro das veias.  Não se deve injetar o produto nas artérias.

O tratamento cura as varizes? Infelizmente não.Nem a escleroterapia com espuma pode curar as varizes. O processo é  opção mais moderna para controle da doença. A recomendação é revisões periódicas para avaliar as novas veias dilatadas e com refluxo que, então, deverão ser esclerosadas.

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